O Paraíso de Francisca

Lar é onde o bumbum descansa”, já dizia Pumba do filme “O Rei Leão”. Porém como descansar o corpo se a alma não acompanha? Francisca viveu por muitos anos aquele dilema. Amava infinitamente as pessoas à sua volta, mas não conseguia ter a certeza que recebia o mesmo sentimento em troca.

Como alguém que ama não percebe a tristeza no coração da pessoa amada? — Se perguntava às vezes.

No entanto, quando recebeu um imenso apoio da família para ir atrás de seu sonho, ela percebeu que o sentimento era real. Ficaram felizes com a felicidade dela, e para Francisca, aquilo não podia ser outra coisa senão amor.

(…)
Quando o celular tocou naquele final de tarde, a mulher resolveu atender depois de ler o nome de sua irmã na tela do aparelho. Ela odiava falar ao telefone, mas Francisca estava longe e entendia que Clara sentia saudade de ouvir sua voz. Era a primeira vez que ficavam longe uma da outra por tanto tempo.

— Estou com saudades, Fran! — declarou Clara sem perder tempo.

— Oi! — respondeu ela feliz em ouvir uma voz familiar.

— Tudo bem com você?

— Tudo ótimo! E com você?

— Estou bem, mas estou com muita saudade…

— Ah… Desculpa por não estar aí com vocês…

— Não se preocupe com isso — aconselhou a irmã. — Você está feliz?

— Muito! — Francisca sorria ao responder.

— Como são as coisas aí? — A animação dela era evidente.

— Maravilhosas! As pessoas estão sendo muito educadas e agradáveis comigo, o curso está sendo tão bom quanto eu imaginava e tenho inclusive saído bastante.

— Fácil assim? Você nunca gostou muito de sair. — Clara riu do outro lado da linha. — Eu precisava insistir por dias!

Francisca ficou em silêncio. Gostava da irmã, era apenas 2 anos mais velha que ela, mas não do tipo de festas que ela frequentava ou dos lugares que insistia em levá-la. Não havia nada de errado, só não se sentia confortável com a música alta, as pessoas gritando e a falta de lugar para sentar. 

Mas era o que as pessoas da idade das duas gostavam de fazer. Pensava que talvez houvesse algo errado com ela e insistia em acompanhar a irmã até que, quem sabe, um dia magicamente passasse a gostar de tudo aquilo.

— A maioria das vezes foi para ir ao cinema, em outras saímos para um café ou coisa assim… — respondeu Francisca.

— Que tédio!

A outra irmã apenas riu em resposta. O que era tédio para Clara, era o paraíso para Francisca.

— Você conseguiu um lugar para morar, ou ainda está no hotel?

— Achei melhor alugar um apartamento, coisa pequena e barata, mas bem aconchegante — explicou Francisca. — Quarto, cozinha e banheiro são suficientes para meus livros e eu.

— Mas seus livros ainda estão todos aqui…

— Eu comprei mais, ué! — retrucou Francisca. — Você não faz ideia do quanto são mais baratos aqui!

— Não sei como você aguenta ler tanto… — suspirou Clara. — Chato demais!

— Você gostava quando a gente era criança… — provocou Francisca.

— Acho que eu fingia mais do que gostava… Para agradar os adultos.

Francisca não achou que naquela época a irmã apenas fingia gostar, mas com o tempo ela realmente parecia estar perdendo o gosto pela leitura. Ela sempre achou que fosse uma fase que passaria logo, mas aparentemente não era.

— E os gatinhos? — continuou Clara. — Tem cada homem lindo aí! Traz um para mim na mala!

Francisca não resistiu e deu uma gargalhada.

— Quando saí daí você estava muito interessada no nosso professor de inglês!

— Perda de tempo… O cara nem olha para mim… — bufou Clara.

— Pois é ele quem sai perdendo! — afirmou a irmã mais velha.

— Estou com saudades, Fran…

— Também estou, Clara…

— Volta logo — pediu a irmã.

— Farei o possível — respondeu ela sem muita convicção.

— Te amo.

— Também de amo.

As duas se despediram e uma lágrima solitária desceu pelo rosto de Francisca depois de desligar o telefone. Ela amava a irmã, a família toda, na verdade, mas talvez eles amassem uma versão que haviam criado dela. Uma Francisca que imaginaram e ela mesma fingiu ser para não decepcionar ninguém. 

No entanto, além de se aventurar naquela viagem, ela também estava decidida em se aventurar nela mesma. A felicidade que estava sentindo era tão grande que Francisca não queria abrir mão. Não estava fazendo nada de errado se respeitando seus gostos e seus limites. No fundo ela sabia que as pessoas que a amavam, não a odiariam por isso, mas tinha certeza que caminharia praticamente sozinha dali em diante.

Essa cena foi inspirada em outra também publicada aqui no blog: ‘Meu verdadeiro País das Maravilhas’ em 2012. Um tempo atrás eu reli todas das postagens que publiquei aqui e quis revisar algumas e acabou despertando em mim a vontade de dar continuidade a outras.

Minha primeira ideia era continuar a história de Sophie do primeiro conto, mas por algum motivo (forças invisíveis do universo?), me senti inspirada a falar sobre outra personagem com o início de mudança de vida parecido, Francisca. Não sei o que aconteceu com Sophie. Não consegui me comunicar com ela. Talvez tenha encontrado outra pessoa para escrever sua história. Espero que ela esteja bem.

Espero que vocês tenham gostado de conhecer Francisca. Em breve trarei mais cenas com ela! 😉

8 comentários:

  1. Oi, Helaina. Tudo bem? Muito bom! Espero por mais histórias com Francisca. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Oi Luciano, tudo bem sim.
      Fico feliz que tenha gostado! Já estou planejando algumas para 2023!
      Abraço;

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  2. Um texto que começa citando o Rei Leão não tem como dar errado! <3
    Linda a leveza e a melancolia da história. É legal ver como o amor às vezes se dá de formas diferentes do que Hollywood pinta por aí.

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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    1. Eu estou adorando colocar referências das coisas que eu gosto nos meus textos, porque também adoro ler essas coisas nos textos dos outros.
      Fico feliz que tenha gostado. Eu amo o amor romântico, mas gosto de dar espaço para as outras formas de amor também.

      Beijos;

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  3. "Como alguém que ama não percebe a tristeza no coração da pessoa amada?"
    Essa frase por algum motivo me tocou...
    Você escreve super bem :)

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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    1. Isso passa o tempo todo pela minha cabeça, pois eu nunca sei se devo dizer as pessoas que não estou bem ou se elas conseguem perceber. Se for esse o caso, só vou incomodá-las. Às vezes eu acho que elas também poderiam perguntar sabe, tem vez que a gente está tão mal que nem pedir ajuda consegue. Complicado.
      Muito obrigada! Fico feliz que você tenha gostado :)

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  4. Amei o texto.
    E logo no começo quando você citou uma frase do rei leão já me deu uma nostalgia danada. Vontade de rever os filmes que eu sabia as falas de cor hahahah
    Beijos.


    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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    1. Que bom que você gostou!
      Nossa, faz séculos que eu não assisto também. Até que é uma boa ideia!

      Beijos;

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