sábado, 2 de julho de 2022

Confidências

Cada um tem sua preferência quando o assunto é aproveitar o final de semana. Uns gostam de sair, outros de ficar em casa, mas é quase uma unanimidade a opção de ficar bem longe do trabalho. No entanto, Beatrice e Miguel fazem parte de uma minoria. Fotógrafos da agência Buscando Inspiração, os dois aproveitavam o tempo livre para mais fotografias. O diferencial estava no fato de poderem escolher onde e quais imagens capturar, e o que o casal mais amava era colecionar registros de construções em ruínas.

— Como você conseguiu autorização para entrar e fotografar a escola? — perguntou Beatrice acomodada no banco do carona do carro.

— Usei meu charme — respondeu Miguel piscando o olho direito para a amiga.

— Você pagou, né? — retrucou a mulher enquanto apertava os botões no painel do rádio do carro em busca de uma música que agradasse aos dois.

— Sim, — admitiu ele rindo. — Infelizmente parece ser a única linguagem que esse mundo entende. — Ele suspirou.

— Depois me fala quanto você gastou pra gente dividir.

— Deixa essa música — pediu ele ao ouvir os primeiros acordes de Bones da banda Imagine Dragons. — Não precisa me pagar nada. Você trouxe nosso almoço. — Ele sorriu para a mulher.

sábado, 4 de junho de 2022

[Devaneios Noturnos] #3 - Não faz sentido

Sonhos... Pesadelos... desde sempre cheios de mistérios, interpretações...

Recentemente passei a prestar atenção em como eu reajo a cada situação, ao invés de analisar apenas os elementos presentes no sonho. Tem me ajudado muito mais a compreender meus sentimentos, e minha relação com as pessoas, do que quando eu procurava no Google o significado de cada evento estranho que acontecia. Muitos dos meus pesadelos me mostram medos e tristezas que eu passei a vida ignorando, e entender cada um tem sido ótimo e me ajudado a lidar com minha ansiedade.

Mas nem tudo são pesadelos (#aindabem). Às vezes são sonhos nonsense que me trazem boas sensações e esse foi o caso de um que tive recentemente. Mesmo cheio de elementos com significados que eu já entendo bem melhor do que há alguns meses, esse me pegou pela excentricidade. Talvez seja melhor evitar maratonas de vídeos no Youtube por um tempo.

sábado, 14 de maio de 2022

A historia de Beija-flor e Albatroz

A primeira coisa que deixou de existir foram seus nomes...

Aquele homem grande todo encolhido sobre a cama fez o coração da mulher bater fora do ritmo normal. Ela também se sentia desorientada por ter acordado sem saber quem era e onde estava, mas tentava manter a calma.

Uma enfermeira havia explicado com muita paciência que esse era exatamente o resultado esperado depois de um mês de tratamento. Eles esqueceriam sua identidade, mas não coisas como andar, falar e o básico aprendido na escola, pois isso seria inconveniente para o objetivo final.

Incomodada por ninguém aparecer para confortar o homem, ela decidiu fazer isso. Sentiu frio quando seus pés descalços tocaram o chão, mas não recuou da decisão. Andando devagar e levando consigo o que parecia ser soro preso em uma haste conectado ao seu braço, ela atravessou o quarto.

— Tenha calma. Nós vamos ficar bem. — Ela sentou na cama ao lado do homem. — Albatroz. — A mulher leu a palavra na pulseira de identificação no braço dele.

Ele olhou para ela com os olhos cheios de lágrimas.

— Parece que esses são nossos nomes agora. — A mulher sorriu com os olhos afetuosos.

— Como consegue ficar tão calma? Nós perdemos toda nossa memória! — Ele deitou de costas para ficar de frente para ela.

— Pelo que a enfermeira disse, nós aceitamos isso. Provavelmente não éramos pessoas muito boas. — Ela segurou a mão do homem com o braço onde estava fixada sua pulseira de identificação. — Estou encarando como uma nova chance.

— Então espero que consigamos nos sair melhor dessa vez, Beija-flor. — Ele leu o codinome dela.

— Parece que o pessoal aqui gosta muito de pássaros. — Ela riu e o homem a acompanhou.

— Talvez seja para ser sinônimo de liberdade. Nossa nova chance, como você disse — concordou ele.

— Pretendo fazer da melhor forma que puder dessa vez. — A mulher ficou de pé e fitou a planície com árvores espaçadas através do vidro da janela da enfermaria. — Mas talvez eu sinta falta dos almoços de domingo na casa da vovó.

— Você se lembra disso? — O homem ergueu metade do corpo, se apoiando nos cotovelos, e olhou espantado para ela.

— Não, seu bobo. — Ela riu. — Maneira de dizer...

Albatroz gostou do senso de humor dela.

Depois desapareceu a dor...

— Tem certeza que não é melhor ir para a enfermaria, Alba?

— Não precisa, sei que você consegue dar conta disso. — Ele gemia enquanto tirava a camisa. — São só alguns arranhões.

— Alguns arranhões? Você mergulhou num arbusto cheio de espinhos!

sábado, 30 de abril de 2022

Viagem molecular

Sempre amei aquela ansiedade antes de viajar, por mais que gere um nervosismo e um fio na barriga com medo de algo sair errado, o resumo geralmente são lembranças positivas.

Entretanto, não é só preparar tudo, arrumar as malas e partir. Meu copo precisa se organizar, como se cada célula necessitasse de um tempo para se deslocar de onde eu estava para me encontrar em meu destino.

O processo é extremamente cansativo, lento e eu não consigo evitar ficar extremamente instável e com o humor imprevisível e sei o quanto isso é ruim.

Eu também não gosto.

sábado, 2 de abril de 2022

A magia que nos une

Todas as crianças do reino podem ter seus futuros cônjuges escolhidos pelos pais, mas há uma condição para que o jovem casal permaneça junto, mesmo que esse mostre afeição um pelo outro. Todos precisam passar pelo teste de serem enviados a um universo paralelo, sem magia, onde precisam se encontrar e se apaixonar um pelo outro. O primeiro beijo de amor do casal é o que os traz de volta para casa e concede a permissão para o casamento, apagando imediatamente qualquer indício da presença dos dois nesse local ao qual não pertencem.

Quando quatro amigos tiveram filhos, não hesitaram em sugerir que os bebês Abelis e Atrone um dia formassem um casal. A certeza era tanta de que as crianças passariam no teste que foram batizados de forma que seus nomes combinassem nos convites de casamento. Quando o jovem casal de amigos atingiu a maioridade, realmente já estavam enamorados, mas tiveram que se submeter às regras do reino como todos os outros.

Certos de que conseguiriam se apaixonar um pelo outro em qualquer universo, Atrone e Abelis encararam com alegria o desafio e em pouco tempo realmente estavam de volta para recuperar suas memórias extraídas deles e guardadas na forma líquida em um cofre na sala do desafio. Além do cofre, uma magia protegia as lembranças e se outra pessoa a ingerisse iria expelir imediatamente. O problema nesse caso é o proprietário da memória teria que beber o vômito de alguém (nojento).

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