Procura-se: Felicidade

O verão estava quase no fim, mas os dias quentes ainda não haviam dado trégua e isso deixava Beatrice sempre com um péssimo humor. Ela detestava a sensação de estar sempre com sede ou as várias idas ao banheiro, quando decidia beber um pouco mais de água. Entretanto, apesar da tarde sufocante mesmo com o ar condicionado da Buscando Inspiração trabalhando sem descanso, a mulher parecia feliz pelo que deduziu Miguel, seu amigo e colega de trabalho, ao se aproximar da mesa dela.

— Animada hoje! — disse o homem olhando o título da música que ela ouvia pelos fones de ouvido sem fio na playlist do celular dela.

— Não, — respondeu a mulher com sinceridade. — Assim que abri os olhos lamentei o fato de estar viva e passei alguns minutos desejando não ter nascido.

— Jamais conseguiria imaginar isso com essa seleção de músicas — continuou o amigo sem se espantar, pois além de não ser a primeira vez que ele a ouvia falar daquele jeito, sabia que Beatrice finalmente havia decidido procurar ajuda profissional e estava fazendo terapia.

— Não gosto desse sentimento, — justificou ela.

— Acho que ninguém gosta — comentou o homem apoiando o quadril na beirada do tampo da mesa.

Beatrice parou de editar a foto em que trabalhava e olhou para o amigo.

— É por isso que ouço músicas alegres quando isso acontece tipo, do nada. Às vezes tudo o que eu preciso é de um empurrãozinho de energia. Uma distração. Mente ansiosa adora inventar histórias que me deixam ainda pior e melodias tristes só alimentam essas ideias.

Ele sorriu.

— Um coração parado não volta a bater se a gente deixar ele à própria vontade, eu imagino que com o cérebro não seja muito diferente. O choque de uma música alegre é muito útil pra trazer ele de volta para a “normalidade” — a mulher gesticulou as aspas com as mãos.

— E um sorvete com vários tipos de cobertura, também ajuda?

Beatrice se animou.

— Nesse calor, ajuda bastante!

— Acho que está na hora da pausa para o café, que pode muito bem ser substituído por algo mais refrescante.

Mal Miguel acabou de falar, a mulher já havia salvado seu trabalho, juntado seus pertences e estava pronta para sair. A vantagem de trabalharem no centro da cidade era que tudo ficava perto, inclusive uma sorveteria que vendia a sobremesa por quilo em uma esquina a menos de um quarteirão de distância.

— E agora, você está feliz? — perguntou Miguel sentado à mesa de frente para a amiga com seu pote de plástico amarelo com três bolas de sorvete de morango com cobertura de chocolate.

— Estou em paz, e isso é o mais perto que eu consigo chegar da felicidade sem começar a sentir que algo ruim está prestes a acontecer. É a hipervigilância, minha terapeuta explicou. Meu cérebro está constantemente analisando o ambiente à procura de algum indício de que as coisas não estão indo bem para poder me proteger. O problema é que isso é muito cansativo.

A mulher adorava ir à sorveteria self-service e montar o sorvete mais elaborado que conseguia. Ela estava totalmente feliz com sua mais recente obra de arte que consistia em três bolas de sorvete, chocolate, limão e maracujá, cobertura de calda quente de chocolate e castanhas picadas, dois canudinhos de biscoito e algumas cerejas falsas em uma casquinha tipo waffle.

— E não tem como parar com isso?

— Não é tão simples porque eu aprendi a ser assim na infância, e por não ser um comportamento que chamava a atenção dos adultos, ninguém se importou com aquela criança obediente que não fazia muito barulho. Na verdade, isso geralmente é incentivado. O problema é o que está por trás, o que está acontecendo do lado de dentro. O medo da criança em ser abandonada ou repreendida se não seguir à risca o que sua consciência determina.

— Mas se você compreende isso, e já foi há tanto tempo…

— A questão é que as reações que tenho hoje são automáticas porque ficaram gravadas no meu sistema nervoso. É como se eu fosse um computador rodando Windows XP enquanto tudo se baseia em aplicativos. Não é só explicar para ele como funciona, precisa fazer um upgrade do sistema se não quiser viver de programas similares. Mas, por sorte, eu não sou um computador e não estou presa em um sistema obsoleto, nem preciso de mais espaço na memória ou maior capacidade de processamento. A má notícia é que minha "atualização" é feita enquanto estou “ligada”, vivendo, diferente do computador que paralisa todas as funções quando precisa fazer uma alteração radical no sistema.

— Você ama analogias, não é?

— Eu tenho um pouco de dificuldade em me explicar, então tento usar algo mais prático para as pessoas me entenderem.

— Dificuldade sua ou será que as pessoas só te deixavam falar sem realmente te escutar?

Beatrice parou para pensar na pergunta do amigo. Uma vida inteira sempre achando que havia algo errado com ela, sabia que não poderia ignorar a observação. Ela ficou feliz por ter encontrado uma terapeuta para ajudá-la a chegar a uma conclusão sobre o assunto. Desatar todos os nós que haviam em sua mente sozinha era uma tarefa muito mais desagradável e exaustiva do que fazer aquilo com o acompanhamento de um profissional capacitado.

— Não sei… — respondeu ela por fim.

— Comigo foi assim por um tempo. — Miguel deixou o sorvete de morango derreter sobre sua língua. — Isso se não riam quando eu contava que tinha visto um fantasma. Resolvi parar de falar sobre o assunto.

— Não tentou uma ajuda profissional? Eu resisti bastante até aceitar a ideia e demorou até encontrar uma terapeuta com quem eu me sentisse à vontade para falar.

— Sinceramente, duvido que alguém acreditaria na história de um menino que viu um fantasma. Meu tratamento se basearia em me convencer de que aquilo não aconteceu.

— Eu acreditei quando você me contou. — Beatrice pegou uma porção do sorvete de limão junto com uma das cerejas. Adorava sentir o doce e o azedo se misturando em sua boca. — Tá bom, pode dizer que eu sou doida e não sou parâmetro.

— Jamais faria isso — ele sorriu para a amiga.

— Eu sei, — afirmou a mulher. — Mas que eu estou fora dos padrões esperados, eu sei que eu estou.

— E quem liga para padrões?

— Geralmente quem não conseguiu lidar bem com as próprias experiências e precisa ficar regulando as dos outros. — Beatrice sorriu para o amigo que retribuiu o gesto. — Por sorte nem todo mundo é assim. Algumas pessoas, mesmo ainda machucadas pelo que aconteceu com elas, conseguem ter empatia de verdade. E isso incluiu você. — Beatrice apontou para o amigo com a colherzinha amarela de plástico com que tomava o sorvete.

— Nunca achei certo descontar minhas frustrações nos outros, me sinto muito mal quando faço isso sem querer. Mas é como você disse, está gravado no meu sistema nervoso.

— Quem acha que é só esquecer e deixar pra lá não sabe como o corpo funciona. Você pode superar o que te feriu, mas precisa processar a experiência e geralmente isso requer ajuda profissional.

— E até lá, um sorvete pode ajudar! — declarou ele raspando o restinho do chocolate antes de soltar a colherzinha no fundo do pote.

— O problema é que se a gente não voltar logo pro trabalho, nem dinheiro pro sorvete vamos ter! — afirmou ela também terminando a sobremesa.

— Nem brinca com um negócio desses! — Miguel jogou a embalagem que havia usado junto com a colherzinha de plástico da amiga na lixeira. A mulher terminava o sorvete comendo a casquinha fina tipo waffle.

Os dois saíram em silêncio do estabelecimento e caminharam pela calçada.

— Sabe, talvez eu esteja mais do que em paz — disse ela ao pararem para esperar o sinal ficar verde para atravessarem.

— Você está feliz?

— Fala baixo — sussurrou ela como se aquilo precisasse ser mantido em segredo enquanto exibia um sorriso enorme no rosto.

Miguel balançou a cabeça e sorriu quando os dois puderam enfim atravessar a rua. Ele concordava com a ideia de que felicidade não era um destino e sim o caminho e esperava que muito em breve a amiga conseguisse superar seus traumas e admitir em voz alta que já havia encontrado a felicidade.

Instagram: @helainaideas

O verão está quase acabando, mas antes disso trouxe essa história reflexiva a refrescante para vocês.

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E se quiserem ler mais algumas histórias com Beatrice e Miguel, clica aqui.

Aviso: As informações relativas a questões psicológicas foram retiradas da internet e, apesar de serem de perfis de profissionais que eu sigo, não devem ser tomadas como diagnóstico. Caso se identifique, procure aconselhamento profissional.

6 comentários:

  1. Olá Helaina!

    Tudo o que a gente precisa é de paz. E um pouco de sorvete. ♥
    Gostei do texto e também acho importante procurar ajuda em terapias.
    Bjos =*

    www.namoradanerd.com.br

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    1. Nossa, sim! Os dois acompanhado de batata frita pra mim então é o paraíso para mim!
      Fico feliz que você tenha gostado!
      Beijos;

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  2. Oi, Helaina. Tudo bem? Curti o texto. As histórias de Beatrice e Miguel são excelentes. Abraço!



    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Oi Luciano, fico feliz que tenha gostado!
      Tenho planos para mais textos deles em breve.
      Abraço!

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