sábado, 9 de abril de 2011

Escuridão - Parte 01

Escuridão

- Posso interromper seus pensamentos? - perguntou Jared, um homem de aproximadamente 30 anos, alto, de porte atlético e cabelos castanhos escuros a uma mulher que estava sentada em frente a uma das mesas na cafeteria onde ele trabalhava.
Anna olhou para o homem. Ela tinha quase a mesma idade dele, era magra e tinha alguns centímetros a menos que ele. Seus cabelos castanhos lhe caiam com leves ondulações nas costas.
- Ah, tudo bem. Não está interrompendo - respondeu ela.
- Posso te servir alguma coisa? Nosso café é a especialidade aqui da região. Posso dizer que é o melhor de Nova Iorque - disse ele sorrindo.
- Acho que não posso sair da cidade sem experimentar não é? - ela sorriu - pode trazer uma xícara pra mim, por favor.
- Em um minuto - respondeu Jared se afastando.
Anna ficou olhando enquanto ele se afastava. Por um momento ela se sentiu dentro de um seriado ou filme americano onde um homem muito bonito com cara de adolescente aparece do nada e muda a sua vida. Mas ela logo parou de imaginar coisas.
Jared voltou com a xícara de café e ficou de pé ao lado dela.
- Hum, - disse ela depois de experimentar - realmente muito bom!
- Meu pai compra os grãos direto do produtor que vive há alguns quilômetros daqui.
- Por isso é tão bom. Parece muito mais fresco dos que os que a gente compra no mercado.
Jared sorriu para ela - você é daqui? - ele perguntou.
- Na verdade sou de muito longe - ela sorriu - vim do Brasil.
- Nossa, quando você falou que veio de longe imaginei um estado longe, mas não outro país.
Anna sorriu.
- Mas você nasceu aqui ou coisa assim? Você não tem sotaque de estrangeira.
- Na verdade foram muitos anos de treino.
- Bastante treino - ele comentou - ah quanto tempo você mora aqui?
- Faz dois anos já. Ganhei a viagem de presente dos meus pais e me estabeleci. Mas estou pensando em voltar pra casa.
- Por quê? Ah, me desculpe a intromissão - perguntou ele se desculpando em seguida.
- Tudo bem - Anna sorriu - eu trabalhava em uma livraria, mas o dono teve que reduzir o pessoal. Foreigner's first. Mas eu não fiquei aborrecida, vou aproveitar a oportunidade e voltar pra casa.
- E se você conseguisse outro emprego? - perguntou Jared.
Anna olhou para ele sem responder.
- Espere um minuto - Jared se afastou e voltou alguns instantes depois com um homem parecido com ele, porém com alguns anos a mais, o que era denunciado por alguns fios de cabelos brancos.
- Olá - disse o homem estendendo a mão e cumprimentando Anna - eu me chamo Arthur, e meu filho Jared disse que você poderia estar interessada em um emprego?
- Ahh... bom, é. Na verdade eu iria voltar para casa por não ter mais como me manter aqui.
- Tem experiência trabalhando com público?
- Eu trabalhava em uma livraria. Acho que talvez seja um publico diferente, mas tenho sim.
- Bom, estamos precisando de mais uma pessoa para nos ajudar a servir as mesas. O Jared tem ajudado, - ele apontou para o filho - mas ficar no caixa e servir as mesas ao mesmo tempo não são tarefas fáceis - comentou Arthur sorrindo - fique um tempo como experiência, qualquer tempinho que você ficar conosco vai ajudar bastante - continuou ele.
- Aceito - ela respondeu sorrindo.
- Quando terminar seu café venha a meu escritório para acertarmos os detalhes - Arthur apertou a mãos dela mais uma vez e começou a se afastar - desculpe  indelicadeza, mas qual o seu nome?
- Anna - ela respondeu sorrindo.
Arthur e Jared sorriram de volta.

***
Seis meses depois

Anna e Jared entraram no primeiro posto de gasolina que encontraram. Com a chuva torrencial que caía não havia como eles continuarem a viagem de carro de volta pra Nova Iorque.
- Vou ligar pro seu pai e avisar que não chegaremos hoje - disse Anna a Jared.
- Eu vou à loja de conveniência tentar descobrir onde exatamente estamos, já que esse posto não está no mapa.
Anna acenou positivamente com a cabeça, e Jared saiu do carro. Anna discou os números do café onde trabalhava e logo ela e Arthur se puseram a conversar. Uns dez minutos depois, muito molhado, Jared voltou para o carro.
- O dono da loja disse que tem uns chalés pra alugar aqui perto.
- E onde estamos? - perguntou Anna pegando uma toalha dentro de sua mochila no banco de trás e entregando a Jared.
- Old River. Conhece?
- Nunca ouvi falar - respondeu Anna sorrindo.
- Bom, de qualquer forma, a gente passa a noite nesses chalés e amanhã de manhã, vamos para Nova Iorque - Jared devolveu a toalha para Anna.
- Espero que o tal lugar não seja longe. Você não pode ficar muito tempo com essa roupa molhada.
- Tá bom mamãe - disse Jared sorrindo enquanto ligava o carro.
Anna sorriu de volta para ele e ligou o ar quente para ver se isso mantinha Jared aquecido. Ele seguiu as indicações que o homem havia dado e logo eles chegaram ao local onde havia os chalés. O local era simples, mas contanto que fosse limpo e seco, luxo no momento não fazia muita diferença.
Jared parou o carro próximo ao que parecia ser a recepção e os dois entraram.
- Boa noite - ele disse para chamar a atenção da mulher que lia um pequeno livro, sentada atrás do balcão - nós gostaríamos de alugar dois quartos para passar a noite.
A mulher se levantou e chegou mais perto do balcão. Ela era magra e de aparência cansada. Era possível enxergar sua silhueta ossuda por baixo do vestido comprido de malha de flores miúdas que ela usava.
- Está tudo ocupado. Só temos um quarto.
Jared se virou para Anna.
- Por mim não tem problema eu passar a noite no carro - ele sugeriu.
- Não tem essa necessidade Jay - ela se aproximou do balcão - o quatro que você tem vago tem cama de casal ou duas de solteiro?
- Posso colocar vocês no que tem duas de solteiro.
Anna voltou a olhar para Jared - por mim não tem problema. Eu confio em você - disse ela sorrindo.
Jared sorriu de volta com a brincadeira da amiga - vamos ficar com este então - ele informou a mulher da recepção.
Depois de acertarem os detalhes financeiros ela entregou uma chave a eles. O chalé que eles haviam locado era de número 9 e ficava de frente para um grande carvalho. O quarto era simples, como eles imaginaram, mas era seco e aconchegante. Havia uma escrivaninha velha e cheia de cupins, duas camas de solteiro, uma televisão velha e empoeirada e um guarda-roupas. Conjugado com o quarto havia um banheiro.
- Estranho ela dizer que os quartos estão todos ocupados não é? O estacionando está praticamente vazio. Acho que além do seu carro só vi mais outros dois.
- Acho que ela quis dizer que os outros quartos estão interditados, isso sim.
Anna não respondeu, apenas deu uma gargalhada. Seu estômago, no entanto a fez lembrar que não haviam comido nada desde que haviam deixado a casa da fazenda do cafeicultor - lá no posto, você comprou alguma coisa pra gente comer Jay?
- Não. Me esqueci. Mas se você quiser... - Jared não conseguiu terminar a frase, pois foi interrompido por um forte espirro.
- Jared, tira essa roupa molhada. Você precisa tomar um banho quente.
Enquanto Jared pegava roupas secas em sua mochila, Anna foi verificar o banheiro. Para sua infeliz surpresa ela descobriu que estavam sem luz.
- Pode esquecer o banho quente por hora. Não temos luz - disse ela voltando para o quarto.
- Poxa, eu ia gostar de um banho quente agora. Estou com frio - respondeu.
Anna se aproximou de Jared e toucou sua testa.
- Você está um pouco quente. Não é febre ainda, mas você precisa se aquecer pra não piorar.
Jared entrou no banheiro e trocou suas roupas por outras secas enquanto Anna sacudia um cobertor que encontrou no guarda-roupa para tirar a poeira que havia sobre ele. Seus olhos se encheram de lágrimas quando uma quantidade grande de poeira entrou pelo seu nariz. Ela não resistiu e espirrou.
- Você também? - perguntou Jared já vestido com uma calça de moletom e uma camisa.
- Não. Comigo é só alergia - respondeu ela sorrindo - Anna havia arrumado a cama para ele.
- Eu vou à recepção ver se a mulher sabe quando a luz volta.
- Telefona pra lá - disse Jared indicando um telefone na cabeceira do lado esquerdo da cama.
- Melhor do que sair nessa chuva - Anna tirou o aparelho do gancho, mas ele estava mudo - parece que eu vou ter que encarar o temporal.
- Vai de carro. Depois a gente completa o tanque naquele posto.
- Já volto - Anna pegou a chave do carro no bolso da frente da mochila de Jared.
Um vento gelado varreu o quarto quando Anna abriu a porta. Ela fechou rapidamente e logo Jared ouviu o barulho do carro se afastando na chuva. A recepção não ficava longe, mas Anna agradeceu a ideia de Jared de levar o carro, porém sua visita à recepção não deu muito resultado, e logo ela estava de volta ao quarto.
- A mulher disse que um galho caiu sobre o transformador. Só quando a chuva parar é que vão ver o que dá pra fazer. Até lá... Escuridão.
- Tem uma lanterna no carro.
- O problema é que não podemos deixar ela acesa o tempo todo - enquanto falava, Anna olhava dentro do guarda-roupa e nas gavetas da escrivaninha quando finalmente achou o que procurava - uma caixa de velas e uma de fósforo. A mulher falou que eu iria encontrar. Até parece que eles já estavam preparados pra isso.
- Vai ver estavam. Afinal, isso aqui é bem diferente do The Muse Hotel.
Os dois riram da observação comparando aquele hotel de beira de estrada com o famoso e sofisticado hotel de Nova Iorque. Anna pegou um pote raso na sua mochila, onde antes havia dois sanduíches, e colocou uma vela no pote e outra sobre a tampa, tomando o cuidado de encher os recipientes com água antes de acender as velas. Já com um pouco de luz no quarto, ela foi trocar suas roupas por outras mais confortáveis para poder dormir.
- Anna... - chamou Jared com uma voz melosa enquanto ela se trocava.
- O que Jay? - perguntou ela já imaginando que não haveria nada de seriedade na resposta.
- Uma vez eu ouvi o Mulder falando com a Scully, que um homem consegue se aquecer muito mais rápido se uma mulher nua se deitar com ele.
Anna saiu do banheiro e fitou Jared sorrindo. Comeu palhacitos hoje de manhã foi? - ela arrumou a outra cama para ela - eu vi esse episódio - disse ela se deitando - e a Scully não seguiu os conselhos dele que viveu 9 temporadas e 2 filmes o que indica que o método pode funcionar, mas não é indispensável.
- Você não existe sabia.
Anna sorriu - espero que seja por razões positivas.
- Claro que são - respondeu Jared.
Anna sorriu para ele e se cobriu na tentativa de se proteger do frio. Jared fez o mesmo enquanto raios, trovões e uma forte chuva eram tudo que havia para embalar o sono dos dois.

-Continue Lendo-
___________
Notas
Foreigner's first = Estrangeiros primeiro
The Muse Hotel: é um hotel de Nova Iorque perto da Times Square, no coração da região dos teatros. 
Mulder e Scully: Personagens principais da série Arquivo X que fez muito sucesso nos anos 90. 

5 comentários:

  1. Começo muito bom!! Quero a continuação,hein! =

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    Respostas
    1. Oi prima!!
      Já tem continuação aqui no blog mesmo!!
      Escuridão - Parte 2 - http://universo-invisivel.blogspot.com/2011/04/escuridao-parte-02.html
      Escuridão - Final - http://universo-invisivel.blogspot.com/2011/04/escuridao-final.html

      Lê lá e depois me diz o que achou!!
      Beijusss;

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  2. Hummmmmm bom!!! :)

    Demorei mais eu vim amiga, é que quando eu vim a primeira vez eu nao achei o episódio,.

    Se clicar no continua agente le mais?!! hehe

    Amiga, pode me dar uma força neste post?
    http://dailyofbooks.blogspot.com.br/2012/05/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x_07.html#links

    beijoss

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    Respostas
    1. Que legal que você gostou!!
      Hum... entendi...
      Bom, que bom que vc achou agora!! ^^

      Sim, sim!! A estória já está toda aqui!!

      Já passei lá e estou participando!!
      Beijusssss;

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  3. Estou gostando muito.vou continuar a leitura.

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