sábado, 8 de março de 2014

Artificial

Hoje se comemora o Dia Internacional da Mulher, mas ao invés de escrever um poema ou uma mensagem bonitinha, optei por um pequeno conto. Não sei se o classifico como terror, suspense ou algo semelhante. Tudo o que sei é que para algumas pessoas mais sensíveis talvez essa história inspire pesadelos, já para outras talvez pareça tragicômica. O gênero desse conto vai ter que ficar por conta de você, leitor. Eu apenas a escrevi. Espero que agrade à todos. Homens e mulheres.

Observação: Durante a história, eu menciono uma música tema de um filme. Ela se chama "Theme from Summer Place". Quem não a conhece pode ouvir por esse vídeo no Youtube (clique aqui para ouvir) e se preferir até deixá-la tocando enquanto lê a história. Essa música me inspirou bastante enquanto eu escrevia. 

Sem mais demora, vamos à história!


Artificial

Marcos acorda e se apressa para tomar banho. Precisa sair logo, pois tem uma missão a cumprir no dia. Ele deve comprar presentes para sua mãe e irmã pelo Dia Internacional da Mulher. O rapaz tem dinheiro para dois bons presentes, mas não está muito a fim de comprá-los porque a máquina de lavar roupas da casa já está velha e ele sabe que pelo menos metade do dinheiro para a compra do utensílio acabará saindo de seu bolso. Mesmo tendo um bom salário, não gosta de gastar seu dinheiro com os outros.

O rapaz sai do banho e veste uma calça de brim marrom com um cinto, e uma de suas camisas xadrez. A escolhida do dia é de fundo branco com listras azul-marinho e vermelhas se cruzando. Nos pés um tênis branco. Na cozinha encontra o café preparado por sua irmã antes de sair para o trabalho. Ele come e bebe com gosto e parte em sua missão.

Na porta do apartamento encontra um folder com propagandas jogado perto do batente da porta. Ele pega o papel, mas não há preços, apenas fotos de utensílios domésticos de design e cores que nunca tinha visto. Alguns inclusive com estampas florais. Mesmo sem saber os preços, resolve ir à loja, afinal, um eletrodoméstico tão moderno e diferente certamente serve como presente.

O endereço escrito no papel não fica muito longe dali e Marcos resolve ir a pé. Mesmo sem nunca ter ouvido falar de tal loja, não tem dificuldade em encontrá-la. Por fora parece uma loja de antiguidades, mas uma grande faixa sobre a vitrine indica que ali é realmente o local que ele procura. Quando entra, um sininho anuncia sua chegada.

- Bom dia - diz um vendedor sorridente que vem até ele.

O homem baixo e careca veste o uniforme da loja que consiste em sapatos e calça sociais na cor preta, uma camisa azul claro e no pescoço uma gravata borboleta vermelha.

Marcos teve vontade de rir da vestimenta dele, mas se conteve - bom dia. - Respondeu. Quero ver esses eletrodomésticos que vocês têm aqui - ele mostrou o folder que tinha recebido ao vendedor.

- Oh, mas é claro! Nossos produtos são únicos! Fique à vontade para andar pela loja. Só espero que não se incomode por eu não te acompanhar, mas preciso terminar de arrumar algumas coisas na loja antes que mais clientes cheguem.

- Sem problema. Não se preocupe.

- Os preços estão afixados nos produtos, mas qualquer dúvida me procure.

O rapaz concorda com um aceno de cabeça e o vendedor volta a seus afazeres e o deixa andando à vontade pelos corredores da loja. O lugar é grande e bem iluminado e tem uma música tocando nos alto-falantes da loja.  Marcos reconhece a melodia. É o tema do filme A Summer Place.

O lugar é tão grande que ao final de um dos corredores existe uma pequena casa de madeira. De aparência rústica com uma jardineira embaixo da única janela existente ao lado da porta. Há uma placa em sua fachada com os dizeres: “Nunca o trabalho de casa foi tão fácil. Será difícil você não fazê-lo”. Tanto a porta quanto a janela estão fechadas, mas não trancadas. O rapaz imagina que o funcionário da loja apenas ainda não teve tempo de abri-las e resolve abrir ele mesmo.

Marcos não se lembra de como foi parar ali. Cercado por máquinas de lavar roupas e lavar louças. O que o apavora mais é a impossibilidade de mexer seu corpo. Cabeça, tronco e membros estão todos paralisados. Na verdade não consegue nem mesmo senti-los. Inclusive seus olhos lhe parecem limitados e não há mais pálpebras para que possa piscá-los. Há um funcionário da loja mexendo em um eletrodoméstico bem à frente dele. Marcos tenta gritar por socorro, mas sua voz não sai. Apenas nessa hora ele toma consciência que também já não sente seus lábios.

Quando o funcionário de afasta o rapaz consegue ver a máquina de lavar-louças à sua frente. É um modelo tão bonito e de aparência moderna quanto os outros do anúncio. Uma grande etiqueta amarela e vermelha exibe o preço do aparelho. Tem a cor vermelha e é estampada com pequenas margaridas amarelas. Nesse momento ele se vê no reflexo da porta de vidro do eletrodoméstico. A verdade o aterroriza. Marcos já não é mais o mesmo. Também há uma etiqueta de preço colada nele. Uma ótima oferta para uma máquina de lavar roupas, moderna, com uma porta redonda de vidro na frente, cor branca e estampa xadrez com listras azul-marinho e vermelhas.

A música “Theme from Summer Place” ainda toca nos alto-falantes da loja.

6 comentários:

  1. Pensei que ele estivesse sonhando, mas no final percebi que ele virou uma máquina de lavar roupas haha' Se você não tivesse falado a roupa que ele estava usando eu não ia perceber, muito bom!

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    1. Eu fiquei com medo exatamente disso, que não desse pra perceber que ele tinha virado a máquina. Que bom que a roupa serviu pra demonstrar isso!

      Muito obrigada! :D

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  2. Uau, adorei!! Poderia ser um pouco mais longo, mas curti mesmo assim. Até fiquei roendo as unhas de nervoso rs Você consegue transmitir esse sentimento ao leitor, é incrível!

    Continue escrevendo, por favor *-*

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    1. Eu quis exatamente que ele fosse curtinho pra todo mundo ler. E também porque senão ele não ficaria pronto para o dia que eu queria.
      Fico feliz de tê-la deixado nervosa! Era a intenção! rsrs

      Muito obrigada! :D

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  3. Caramba, sinistro esse final O.O Gostei :D
    Também pensei que ele estava sonhando ou algo assim.
    Parabéns pelo conto!
    Beijinhos e feliz dia da mulher (atrasado ^^' - ou não, porque nosso dia é todo dia :D)

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    1. Hahahah.... adoro finais sinistros!
      Acho que muita gente torceu pra ele acordar no final e descobrir que era um sonho (minha mãe é uma).

      Muito obrigada! :D

      Verdade! Feliz dia da mulher pra você!
      Beijussss;

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