terça-feira, 14 de maio de 2013

Praga (Parte 2)

(Capítulo Anterior - Parte 1)

Não chegou a levar o tempo todo que Jared havia imaginado. Com o trânsito bem livre, duas horas e trinta minutos depois de terem saído, eles chegaram à Ancient Meadows. Era uma cidade pequena, aparentemente pacata. Muito provavelmente se não fosse a universidade, a cidade se resumiria a poucas casas e vário moradores espalhados pelas propriedades rurais.
- Por onde começamos?
- Vou parar o carro e ligar para meu irmão.
Anna ficou observando a cidade pela janela enquanto Jared falava com o irmão.
- Ele me explicou como chegar ao hotel onde ele está.
Jared dirigiu para lá.

- Daniel! - ele anunciou descendo do carro após estacioná-lo e indo abraçar o irmão que o esperava.
- Jared - Daniel retribuiu o abraço.
- Essa é Anna. Trabalha com a gente no café. Ela veio ajudar.
Anna e Daniel trocaram um aperto de mãos.
Ele era um pouco mais baixo e mais magro que o irmão. Seus olhos, castanho claro, combinavam com seu cabelo, também castanhos. Daniel usava uma camisa de malha branca com uma camisa xadrez azul por cima, calça jeans e um par de tênis preto.
- Vamos para o quarto e eu explico o que está acontecendo. Prefiro não falar aqui fora.
Os três seguiram para o quarto onde Daniel estava hospedado. O último daquele bloco, com uma janela ao lado da porta e equipado com televisão e banheiro. Ele se sentou em uma cadeira enquanto Anna e Jared se sentaram aos pés de uma cama de casal.
- As coisas estão muito estranhas aqui nos últimos dias. Um dia estava saindo sangue das torneiras, dois dias depois o campus ficou cheio de sapos.
- Será que não foi brincadeira dos veteranos, Dan?
- Eu quase acreditei nessa teoria Jay. Mesmo só saindo o tal “sangue” no chuveiro do dormitório feminino. Mas se você visse a quantidade de sapos que apareceram no campus. Mesmo que os veteranos estivessem criando sapos, não haveria tantos disponíveis. Você sabe como o campus é grande.
- E como vocês se livraram deles?
- Estranhamente, no dia seguinte apareceram todos mortos. Tão impossível quanto aparecerem tantos sapos é alguém conseguir matar todos eles.
- Bom, ele poderiam ter sido envenenados, mas isso é realmente estranho - Jared comentou.
- Depois disso eu preferi sair de lá. E foi na hora certa. Todos os quartos estão lotados agora.
- Todos?! - Anna exclamou.
Jared olhou para ela.
- Deixa pra lá, depois a gente resolve isso. Que tal se nós formos até a faculdade? - ela sugeriu.
Os irmãos se entreolharam.
- Não sei se vocês vão achar alguma coisa lá. Mas podemos tentar - concordou Daniel.
- De qualquer forma vai ser uma boa oportunidade pro seu irmão testar o detector de espectros.
- Desde quando você tem um troço desses, Jay? - Daniel abriu a porta e saiu.
- Bem, eu... hã..
- Você devia assistir menos televisão, cara.
- Eu falei - disse Anna enquanto saía do quarto.
Jared saiu por último e fechou a porta.

***
Eles deixaram o carro no estacionamento do campus de frente à reitoria e se separaram. Anna ficou encarregada de passear com o detector pela ala feminina e os irmãos andaram pelo campus nos locais onde os sapos haviam aparecido. No entanto, todos os lugares estavam como se nada estranho tivesse acontecido na cidade por anos. O detector de espectros também não emitiu nenhum sinal. O que já era esperado por Anna, pois ela estava certa de que o amigo havia sido enganado ao comprar tal bugiganga. Desanimados, eles decidiram que seja lá o que havia estado por ali, aparentemente não estava mais. Eles então voltaram para o hotel para tentar resolver o problema em relação à falta de vagas.

Jared parou o carro no estacionamento e os três seguiram para a recepção. Eles explicaram a situação para o homem que apareceu atrás do balcão.
- Olha, tudo o que eu posso fazer é colocar uma cama de solteiro no quarto - disse o homem. Ele parecia ter saído direto do festival de Woodstock e entrado na recepção há uns 60 anos para não sair mais. - E tem uma cama dobrável meio enferrujada no porão que eu posso emprestar.
- Vocês costumam ter a lotação esgotada? - Jared perguntou.
- Não é muito normal não. Mas com os últimos acontecimentos no campus. Ninguém mais quer usar os alojamentos da faculdade.
- Você acha que o que dizem que aconteceu por lá é mesmo verdade? - Jared continuou.
- Claro que não! - o homem surpreendeu os três com uma risada alta. - Os veteranos estão tirando uma com a cara de todos e os calouros estão caindo direitinho.
Daniel saiu da recepção.
- Daqui a pouco mando alguém colocar a cama de solteiro no quarto de vocês - o homem confirmou. - Vão querer a cama dobrável também?
- Sim - Jared respondeu. Vamos precisar dela também.
O homem acenou positivamente com a cabeça.

- Como vamos resolver isso? - Anna perguntou quando saíram da recepção.
- Colocamos um lençol dividindo o quarto, você fica de um lado com a cama de casal, e eu e o Daniel ficamos do outro com a cama de solteiro e a dobrável. 
- Estou sentindo que estou atrapalhando - Anna comentou.
- Engano seu - Daniel comentou. - Amigos do meu irmão são meus amigos também, e são sempre bem vindos.
Anna sorriu.
- Você não se importa de dividir o quarto com a gente não, né? - ele continuou.
- Bom, se vocês prometerem que vão se comportar direitinho...
Os três riam da observação.
- Será que a gente pode ir comer? Tô cheio de fome! - reclamou Jared.
- Hum, verdade. Já passou do meio dia - Anna concordou.
- Sei de uma lanchonete muito boa aqui perto.
- Então vamos pra lá.

A lanchonete tinha o estilo daquelas de filme dos anos 60 como muitas das casas e lojas ali naquela cidade. Esse aspecto tornava todos os lugares ali bem aconchegantes.
Os três escolheram uma mesa em um canto. Em cima dela havia uma pequena toalha xadrez vermelha e branca. Para sentar, dois bancos com assentos e encostos acolchoados, um de frente para o outro em lados opostos da mesa. Jared e Anna se sentaram em um e Daniel do outro lado, de frente para eles.
- Em que posso ajudá-los? - perguntou a garçonete que se aproximou da mesa entregando um cardápio para cada um. Ela usava uma camiseta branca e um jeans com um avental por cima da roupa.
- Um cheeseburger, com batatas fritas e uma cerveja - disse Jared.
A garçonete anotou o pedido e pegou o cardápio de volta.
- E você? - perguntou ela a Anna.
- O mesmo que ele. Mas quero um refrigerante ao invés da cerveja.
- Oi Lucy - disse Daniel que percebeu que a garota ainda não havia notado a presença dele.
- Daniel! - ela exclamou sorrindo.
- Não vai me apresentar sua amiga? - Jared perguntou.
- Ah, - Daniel sorriu - essa é Lucy Anne, ela é estagiária na biblioteca da faculdade - disse ele ao irmão. - Esse é meu irmão Jared e essa é Anna, nossa amiga - disse ele à garota.
- Prazer - ela respondeu sorrindo.
- O prazer é meu - Jared sorriu de volta.
Anna também sorriu para Lucy que sorriu de volta.
- O que vai você querer Daniel?
- Só o cheeseburger com uma cerveja.
- Pode deixar! Três cheeseburger, duas batatas, duas cervejas e um refrigerante - Lucy repetiu os pedidos conferindo se havia anotado tudo. - Já, já eu trago - ela disse antes de se afastar.
- É... ela é bonita - comentou Jared sorrindo.
Daniel apenas olhou para o irmão que sorriu com sarcasmo.

Os lanches não demoraram muito para ficar prontos.
- Aqui está - disse Lucy voltando depois de alguns minutos depois.
Ela colocou uma caixinha com guardanapos, ketchup e mostarda sobre a mesa e depois distribuiu os pedidos.
- Valeu Lucy - disse Jared.
- Obrigado - disse Anna olhando para ela.
- Porque não tira um descanso e se senta com a gente - sugeriu Daniel.
Lucy Anne sorriu e olhou para seu chefe, que estava no caixa, pedindo um tempo para descansar. Como os únicos clientes no momento eram os três, ele respondeu afirmativamente e ela se sentou ao lado de Daniel. Ela era tão magra e alta quanto Anna, mas seus cabelos eram pretos e lisos e seus olhos eram de um castanho mais escuro, quase pretos.
- Estuda aqui há muito tempo? - perguntou Jared.
- Não, comecei ano passado.
- O que você estuda? - perguntou Anna.
- Ciências Biológicas.
Um barulho parecido com um toque de celular interrompeu a conversa das duas.
- Acho que é o seu - disse Lucy a Jared.
Jared, sem entender o que estava acontecendo, colocou a mão no bolso e logo silenciou o aparelho.
- Nada importante - disse ele com um sorriso amarelo no rosto.
- Você trabalha aqui todas as tardes? - perguntou Daniel.
- Só de segunda a sexta. Nos sábados faço só meio expediente e aos domingos não trabalho.
- Como faz para dar conta de todos os clientes sozinha? - continuou Anna.
- Não vem muita gente aqui durante a semana. É aos fins de semana nosso maior movimento. Aí o Chris tem outras meninas trabalhando. Somos cinco ao todo.
- No café do pai deles, - Anna indicou Jared e Daniel - onde eu trabalho, é diferente. Nosso movimento acontece durante a semana. Principalmente pela manhã.
- Você mora nos alojamentos da universidade? - perguntou Jared limpando a boca e tomando um gole da cerveja.
- Sim...
- Aquilo que dizem que aconteceu no alojamento feminino, é isso mesmo? - continuou Jared.
- Só entre a gente - Lucy Anne se aproximou mais do centro da mesa. - Que isso mão espante vocês daqui, mas aquilo na torneira não parecia ser água com corante - ela falou quase sussurrando.
- Parecia sangue mesmo? - perguntou Daniel.
Lucy Anne balançou a cabeça em afirmativa - mas já faz um mês. Não aconteceu de novo.
Um casal entrou na lanchonete.
- Tenho que ir - Lucy Anne se levantou. - A gente se vê por aí.
Eles se despediram e ela seguiu em direção à outra mesa para atender o casal.
Depois que terminaram de comer, os três pagaram e saíram da lanchonete.

- Você deixou o detector de espectros ligado de propósito? - perguntou Daniel enquanto eles andavam de volta para o hotel.
- Não Dan, eu me esqueci de desligá-lo depois que saímos do campus, mas foi só ela sentar com a gente que o detector de espectros começou a fazer barulho.
- Será que essa coisa não está com defeito? - perguntou Anna. - Se é que algum dia já funcionou.
- Bom, por via das dúvidas, quero ficar de olho nela. Sei lá - comentou Jared.
- Não acho que ela tenha alguma coisa a ver com isso - afirmou Daniel.
- Prefiro não descartar nada - continuou Jared.
- Pode deixar que eu ficarei de olho nela - Daniel se prontificou.
Jared abriu um enorme sorriso para o irmão.
- Pode ir parando, Jay.
Anna não teve o que fazer a não ser rir da situação e acompanha-los para dentro do quarto do hotel.
- Daniel, você chegou a procurar na internet algo sobre acontecimentos estranhos aqui na cidade?
- Não. Com tudo o que aconteceu acabei me esquecendo. Vou fazer isso agora - disse Daniel pegando seu notebook. Mas não demorou muito para ele desistir. A busca na internet não deu muito resultado. Ou nada havia acontecido naquela cidade nos últimos anos ou o que tinha acontecido não havia ido parar na internet.
- Leilões, festas promovidas pela faculdade, alguns simpósios, congressos... Nada, além disso. Não sei o que poderemos fazer - Daniel afastou o notebook.
- Tomar cuidado com o que ainda pode vir por aí - Anna comentou.

***
Algumas horas mais tarde, Daniel olhava ansiosamente pela janela.
- O que você está esperando? - quis saber Jared.
- Estou de olho para ver a que horas a Lucy vai sair. Ela mora no alojamento no campus, vou oferecer carona até lá.
- Dan, cuidado. Se ela realmente estiver envolvida nisso pode ser perigoso.
- Vou tomar cuidado Jay.
Daniel pegou seu casaco e saiu do quarto - não precisa me esperar. - Ele disse saindo e fechando a porta.
- E ele diz que eu to inventando coisas - resmungou Jared.
- Ah, - Daniel abriu a porta - e fique longe da minha cama! Se você estiver nela quando eu voltar vai acordar molhado - ele saiu e fechou a porta novamente.
- Ele parece ter falado sério - Anna riu de Jared que fazia uma careta em direção à porta.
- Ele é o engraçadinho da família.
Anna sorriu.
- Olha Jared, se você quiser eu durmo na cama dobrável e você fica com a cama de casal.
- Não tem problema. Eu fico com a dobrável.
- Mas você é maior que eu Jay. Não vai caber nessa caminha.
- Não se preocupe. Depois que eu dormir nem me lembrarei disso.
- A propósito me esqueci de perguntar. Qual é o curso que o seu irmão está fazendo?
- Letras. Ele é apaixonado pela literatura inglesa.
- Que legal. Eu gosto de ler. Depois vou pedir pra ele me recomendar uns livros.
- Ele vai te indicar uma biblioteca inteira! - Jared sorriu.
Anna sorriu de volta.

***
Daniel colocou o casaco dentro do porta-malas e entrou no SUV. Ele dirigiu em direção à rua por onde Lucy Anne andava. Quando chegou perto dela reduziu a marcha do carro.
- Lucy Anne - chamou ele.
- Oi Daniel. Meio tarde pra um passeio não?
- Na verdade estou indo lá no campus. Acho que esqueci meu casaco lá.
- Então acho que você ficou sem ele - respondeu ela andando ao lado do carro.
- Bom, quero conferir isso de perto.
Ela sorriu.
- Quer carona até lá? - Daniel parou o carro e abriu a porta. Lucy Anne entrou.

Não demorou mais do que minutos até chegarem ao campus. Daniel dirigiu até o estacionamento onde Jared havia deixado o carro de manhã.
- Meio escuro aqui - ele reclamou.
Lucy Anne abriu a porta e desceu.
- Onde você acha que deixou ele?
- Bom, ficamos algum tempo sentados naquele banco conversando hoje pela manhã - Daniel apontou para um ponto na onde o farol do carro não iluminava muito bem. - Acho que tenho uma lanterna no porta-malas.
Lucy Anne ficou de pé perto do carro esperando Daniel, que começou a rir assim que abriu o porta-malas.
- Lucy Anne, você não vai acreditar - ele disse.
A garota se aproximou do porta-malas e viu um casaco azul marinho lá dentro. Ela sorriu para Daniel.
- Dan, se queria me dar uma carona até aqui era só ter oferecido.
- E se você não aceitasse?
- Você poderia insistir.
- Me sinto meio idiota.
Ela sorriu novamente - mas eu gostei. Achei muito meigo da sua parte.
Dessa vez foi ele quem sorriu.
- Aproveita que você veio até aqui e me leva mais perto do alojamento. Fica atrás da biblioteca.
Os dois entraram novamente no carro e Daniel seguiu na direção indicada por Lucy.

Continua... (Parte 3)

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