quinta-feira, 30 de maio de 2013

Praga (Final)

(Capítulo Anterior - Parte 6)

O hotel onde eles estavam era perto da entrada da cidade, por isso era o lugar mais próximo para onde eles poderiam ir.
- Você tem certeza que não quer ir para um hospital Jay? Sabe lá o que isso fez com você - sugeriu Daniel desligando o motor.
- Relaxe, eu já estou bem - respondeu Jared saindo do carro.
- Vou até a recepção pegar a chave do quarto - Anna avisou depois que desceu.
- Algum problema se eu te esperar perto da porta do quarto? - Jared perguntou.
- Nenhum - Anna sorriu para ele se afastando.
Lucy Anne descia do SUV quando o som de pneus derrapando tomou conta do estacionamento. Depois se ouviu a porta de um carro sendo batida. Ela contornou o carro e ficou ao lado de Daniel que acabara de sair e estava fechando a porta.
- Você está bem? - perguntou um rapaz alto e forte chegando perto dela
- Eddie... - ela ficou surpresa ao ver o ex-namorado.
- Minha mãe é quem está por trás disso tudo! Ela está fora de controle.
Anna, que voltava da recepção com uma chave, foi para perto de Jared que prestava atenção na conversa de Lucy Anne e o irmão com o estranho que havia se aproximado.
- Só porque eu disse que estava pensando em mudar de cidade ela cismou que é por sua causa, por causa do que aconteceu. Mas não é! - Eddie explicou. - Viver no interior já deu. Quero ampliar meus horizontes...
Ele foi interrompido pelo barulho de outro carro que chegava ao local. Era uma pickup vermelha e Lourdes a dirigia. Ela desceu do carro gritando.
- Vocês destruíram minha fazenda!
Eddie andou em direção a ela - você estava destruindo a cidade mãe!
- Eddie, até você contra mim? Eu estava defendendo seus interesses, filho.
Com a movimentação e os gritos, aos poucos as pessoas começaram a se juntar no estacionamento para descobrir o que acontecia.
- Vocês podem ter conseguido destruir meus planos de me vingar dessa cidade! Mas isso não vai ficar assim! - Lourdes estava transtornada e Eddie teve que segurar a mãe para evitar que ela avançasse sobre Lucy Anne e Daniel. Mas essa tarefa estava cada vez mais difícil.
- Não fui eu quem começou tudo isso - Lucy Anne finalmente falou - se seu filho não tivesse feito o que fez...
- Lucy, melhor não - Daniel a abraçou delicadamente.
Para Lourdes aquela demonstração de afeto foi a gota d’água.
- Sua sem vergonha! Pôs a cidade toda contra meu filho quando a depravada é você! - ela conseguiu se desvencilhar dos braços do filho, mas não avançou sobre os dois. Ao invés disso, seguiu para o carro. Eddie se sentiu aliviado por ver a mãe se afastando, mas ela não estava desistindo. Ele não sabia, mas ela guardava uma arma no porta-luvas do carro.
- Você não vai trocar meu filho por esse idiota! - ela apontou a arma para Daniel.
Tudo aconteceu em uma fração de segundo. Lourdes passou por Eddie que não teve tempo de segurá-la e se aproximou de Daniel e Lucy Anne. Os dois olharam para ela ao mesmo tempo em que Jared e Anna, que estavam mais distantes perceberam o que estava acontecendo. Eles ouviram um clique vindo da arma. Eddie começou a correr em direção à mãe. O barulho que ouviram em seguida foi muito mais alto.
- Daniel! - Jared gritou correndo em direção ao irmão. Anna correu atrás dele e só depois que contornaram o carro, eles puderam ver o que havia acontecido.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Praga (Parte 6)


Quando o carro saiu da cidade e ingressou em uma área mais rural, as casas deram lugar a extensos e verdes campos, mas a paisagem estava longe de ser bonita. Bois, porcos e outros animais de fazenda estavam caídos por toda pastagem com enormes feridas vermelhas sobre seus corpos. Alguns fazendeiros andavam por entre os animais sem entender o que estava acontecendo.
Anna abriu o porta-luvas e tirou lá de dentro uma caneta e um bloco de folhas brancas. Ela escreveu uma lista de palavras. Jared tentava ver do que se tratava enquanto dirigia. Quando terminou, Anna se colocou de lado no banco para poder olhar também para Daniel e Lucy no banco de trás.
- Água em sangue, sapos, piolhos, moscas, peste no gado, úlceras nos homens, pedras caindo dos céus, gafanhotos, escuridão e a morte dos primogênitos - essas são as pragas que caíram sobre o Egito. Se tudo continuar como está irão cair aqui também.
- Como você sabe isso de cor? - quis saber Jared.
- Colégio católico - ela respondeu sorrindo e olhando para ele que sorriu em resposta.
- Será que essas úlceras nos atingirão também?
- Não sei Lucy, melhor tomarmos cuidado - Anna ponderou.
- A entrada da fazenda é essa logo à frente, Jared - Lucy Anne indicou.
Ele seguiu o caminho indicado. Não era possível ver a casa da fazenda da entrada. Eles seguiram por uma estrada sem asfalto ladeada por pastos não tão verdes quanto o das outras fazendas. À medida que avançavam eles notaram um espesso nevoeiro tomando conta da paisagem. O caminho levava diretamente através da espessa camada e Jared reduziu a velocidade para dirigir por ela. Aos poucos o nevoeiro entrou pelas janelas abertas do carro.
- Tem alguma coisa errada com esse nevoeiro - disse Lucy Anne enquanto coçava uma das pernas.
Os outros já tinham percebido algo estranho. As partes expostas do corpo coçavam intensamente e em algumas, pequenas feridas começavam a surgir.
- Fechem as janelas! - pediu Daniel com urgência fechando o vidro da janela perto dele. Lucy também fechou o vidro da janela perto dela. Anna acionou os botões que fechavam os vidros do lado dela e o de Jared. Ele acelerou o carro e depois de alguns metros o nevoeiro começou a se dispersar. Aparentemente estava se dirigindo à cidade.
Quando finalmente se livraram dele por completo, Jared parou o carro.
- Que droga! - Anna olhava para os braços com várias feridas. Daniel também estava com algumas nos braços e pescoço, Jared tinha pequenas manchas vermelhas nos braços e no rosto, mas era Lucy Anne quem estava pior. Como estava usando um vestido, suas pernas, braços, pescoço e rosto, estavam machucados.
- Nos atingiram... - os três olharam para Anna. - As úlceras - ela continuou.
Ninguém fez nenhum comentário. Estavam muito assustados com a constatação que as coisas estavam ficando cada vez mais perigosas.
Uma enorme gota d’água caiu sobre o para-brisa do carro. Os quatro olharam para o céu. Mais gotas caíram. Apesar de o céu estar claro, uma tempestade parecia se aproximar. Um barulho de algo muito pesado se chocou contra o teto do veículo. Jared ligou o carro pronto para continuar. Cada vez a chuva ficava mais forte, e mais objetos pesados batiam contra a lataria do carro. Eles descobriram que os objetos eram pedras de gelo quando uma delas caiu sobre o para-brisa fazendo-o trincar.
Com o limpador ligado em potência máxima, Jared tentava enxergar em meio a toda aquela confusão e quando avistou o que parecia ser um celeiro dirigiu direto para lá. O carro atravessou a porta de madeira já velha quebrando-a em vários pedaços e bateu em uma pilha de feno que terminou por amortecer o impacto.
- Estão todos bem? - ele perguntou.
Daniel e as garotas acenaram positivamente com a cabeça. Ele ligou o carro e o afastou da pilha de feno antes de desligá-lo novamente.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Praga (Parte 5)

(Capítulo Anterior - Parte 4)

- Parece que nós ficamos sem quarto essa noite... - Jared comentou quando chegaram de volta ao hotel depois de saírem do pub.
- Eu é que não vou entrar para atrapalhar - Anna sorriu. - Você está com a chave do carro.
Jared verificou nos bolsos - estamos com sorte. - Ele tirou o alarme da SUV. Anna abriu a porta do lado do carona, e entrou. Jared entrou do lado do motorista.
Eles chegaram os bancos para trás para ter espaço para as pernas e deixaram os vidros fechados por causa do frio.
Jared ligou o rádio. Um rock dos clássicos começou a tocar em volume baixo.
Depois de um tempo ele quebrou o silêncio - acho que eu te devo uma explicação, não é?
- Sobre o que?
- Meu comportamento em relação ao Daniel com a Lucy.
Anna se virou no banco para ficar de frente para Jared. Ele tirou o blazer e jogou no banco de trás. Depois também se recostou de frente para Anna.
- Eu cursava administração na Universidade da Pensilvânia, mas não estava feliz. Então simplesmente abandonei a faculdade, peguei o carro que papai tinha me dado e saí viajando. Fiquei um ano fora e quando voltei, ele não estava nada feliz com o que eu tinha feito - Jared cruzou os braços sobre o peito. - Acho que ele estava com medo de que eu me transformasse em um “boa vida” que só gastasse o dinheiro dele e pior, que levasse Daniel nessa loucura comigo. Na época ele ainda devia ter uns 15 anos - ele fez uma pequena pausa.
Anna acompanhava atenta sem interromper.
- Assim que voltei pra casa, ele vendeu meu carro para cobrir os prejuízos com a faculdade que eu larguei e a condição para que eu pudesse morar de novo com eles era que eu arrumasse um emprego. Trabalhei em uma rede de fast-food e em uma loja de departamento até que papai comprou o café. Quando comecei trabalhando na cozinha, mas com o tempo, papai foi recuperando a confiança em mim e eu cheguei à gerência. Não voltei para a faculdade, mas frequentei uma escola noturna de educação técnica em administração e me graduei. Não com as honras de uma faculdade, mas com conhecimento suficiente para gerenciar o café.
- Isso explica muita coisa - Anna comentou. - Inclusive sobre seu pai não querer mais ninguém largando a faculdade.
Jared deu um sorriso tímido - eu agi por impulso. Podia ter conversado com meu pai, trancado a faculdade por um tempo e viajado tranquilo. Por isso não queria que Dan fizesse as coisas por impulso. É sempre bom pensar pelo menos um pouco antes de tomar qualquer decisão. Seja ela qual for. Acho inclusive que eu sou o culpado por ele não ter ganho um carro quando conseguiu ser aprovado na universidade.
Anna ajeitou uma mecha de cabelo que caía pela testa de Jared - entendo seu ponto de vista, mas o Daniel vai ter que cometer os próprios erros para aprender. O importante é que você continue do lado dele.
- Estarei com certeza - ele deu um largo sorriso. - Mesmo quando tiver que dormir no carro porque meu irmão está no quarto do hotel com uma garota - ele olhou para a porta do quarto que continuava fechada mesmo depois das luzes terem sido apagadas.
Anna olhou para a porta do quarto - fazer o que, né?
Ela tirou as botas e reclinou o banco do passageiro. Jared sorriu e também descalçou os sapatos reclinado o banco do motorista em seguida. 

***
Na manhã seguinte, Jared acordou com o sol atravessando o para-brisa e batendo nos seus olhos. O rádio ainda tocava baixinho. Ele reparou que seu blazer estava jogado sobre seu corpo. Imaginou que fora Anna quem o colocara sobre ele já que não se lembrava de ter feito isso. Ele se levantou e saiu do carro sem acordá-la.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Praga (Parte 4)

(Capítulo Anterior - Parte 3)

No horário marcado, Lucy Anne bateu à porta do quarto onde os três estavam. Ela usava um vestido xadrez vermelho e preto, um casaco de couro por cima do vestido e scarpins pretos. Como Anna e os irmãos já estavam prontos, eles foram para o lugar combinado. Decidiram ir andando, pois o pub era bem perto e a noite estava agradabilíssima.
- A Anna e o Jared te contaram sobre o que encontraram na biblioteca? - ela perguntou para Daniel, que seguia ao seu lado usando uma malha azul com uma camisa social branca por baixo combinando com calças jeans e tênis.
- Não. Eles mencionaram, mas eu quis esperar pra vermos juntos - ele respondeu sorrindo para Lucy e a abraçando.
Anna percebeu Jared enrijecer o punho dentro do bolso do casaco de lã que usava sobre uma camisa azul com listras brancas. Ela se aproximou dele e entrelaçou o braço dela com o do amigo. Jared relaxou um pouco.
- Nós achamos uma estória bem estranha que aconteceu aqui na cidade há bastante tempo - disse Anna que usava uma camisa rosa clara de mangas 3/4, uma calça jeans, um casaco azul marinho que chegava até seu joelho e uma bota preta de cano médio. - Estou com as cópias da matéria aqui - ela bateu no bolso do casaco.
Alguns passos a mais e eles logo chegaram ao pub. O lugar não estava muito cheio. Pequenas mesas estavam espalhadas ali com quatro cadeiras em volta de cada. Sobre cada mesa um pequeno abajur era a única iluminação além da luz que vinha de trás do balcão do bar, o que dava ao lugar uma atmosfera aconchegante.
- Vou pegar cerveja pra gente - anunciou Jared.
- Um refrigerante pra mim - pediu Lucy Anne.
- Pra mim também - continuou Anna.
- Tudo bem - ele se afastou.
Os três escolheram uma mesa onde logo Jared se juntou a eles trazendo as bebidas.
- Bom. Isso foi o que nós conseguimos na biblioteca - Anna tirou algumas folhas de dentro da bolsa - eu tirei uma copia de algumas edições do jornal local de 1943.
Daniel e Lucy pegaram as folhas.
- Engraçado ter acontecido há tanto tempo atrás e agora acontecer de novo - comentou Lucy Anne antes de tomar um gole de seu refrigerante.
- Pode ser que quem está provocando isso agora de alguma forma é relacionado com quem causou da primeira vez - comentou Jared.
- Vocês estão realmente convencidos de que tem uma pessoa por trás disso tudo?
- Viva ou morta, normalmente tem - ele continuou.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Praga (Parte 3)


Jared, que usava uma camisa branca de malha e um bermudão cinza, tentava inutilmente se ajeitar na pequena cama. Além de muito pequena, eles descobriram que suas molas enferrujadas também rangiam. Assim, cada vez que ele se virava era uma sinfonia de molas gemendo.
- Jared, - Anna o chamou afastando o lençol que eles tinham ajeitado entre as camas para dividir o quarto. - Jared! - ela falou mais alto. - Por tudo que é mais sagrado... Não dá pra dormir com o barulho dessa caminha de molas!
Jared parou e olhou para Anna na penumbra. Ela usava uma camisola rosa de com um personagem de desenho animado estampado na frente e mangas curtas com um shortinho por baixo.
- Sobe pra cá. Podemos dividir a cama de casal. Mas traga seu travesseiro e cobertor. Não vamos dividir isso.
Jared pulou na cama e a abraçou beijando várias vezes suas bochechas.
- Para menino! Sossega! Senão eu mudo de ideia - ela sorriu.
- Obrigado. Tava difícil caber naquela caminha - Jared admitiu.
Ele continuou com o braço direito por trás do pescoço dela e ela entrelaçou os dedos de sua mão direita com a mão esquerda dele.
- Você faz eu me lembrar do meu irmão. Nós éramos assim um com o outro.
Jared sorriu - você não me disse que tinha um irmão.
- Tinha dois. George e Frederico, mas agora só tenho um. Ainda dói lembrar tudo. Minha vida mudou muito depois do acidente.
Jared puxou Anna mais para perto dele e a aconchegou junto de seu ombro com seu queixo carinhosamente sobre a cabeça dela.
- George era o mais velho de nós três. Era formado em medicina. Trabalhava com meu pai. Ele estava fazendo um curso de especialização em uma cidade perto de onde a gente morava. Um dia, durante uma viagem da faculdade para casa, um motorista bêbado bateu no carro dele. Ele dirigia um carro pequeno e o assassino irresponsável estava em uma caminhonete. Meu irmão morreu no local.
- Sinto muito - ele disse enquanto acariciava o rosto dela.
Anna apenas agradeceu com um aceno de cabeça enquanto algumas lágrimas rolavam pelo seu rosto.
- E seu outro irmão?
- O Fred é mais novo que eu. Está estudando arquitetura em uma faculdade lá no Brasil.
- Desculpa se eu estiver sendo intrometido, mas quando você começou a estudar medicina?
- Antes de George morrer - Anna respondeu - ele era meu herói. Queria seguir os passos dele. Ia me especializar em neurocirurgia. Mas acabei não conseguindo acompanhar as disciplinas do curso. Acho que não escolhi baseado no que eu gostava, mas sim porque meu irmão tinha se formado em medicina. Depois da morte dele eu quis abandonar, mas meus pais não acreditaram que eu estava fazendo isso porque eu não estava feliz com o curso. Acabei tendo que concluir mesmo sem me identificar com a profissão e desde então venho evitando trabalhar como médica. Quando meu pai começou a me pressionar pra trabalhar com ele, pedi pra vir pra Nova Iorque fazer uma especialização. E o resto da estória você já sabe - ela olhou para o amigo e deu um sorriso tímido. - Nossa... Eu falo demais. Desculpe-me.
- Eu gosto de ouvir você falar - Jared beijou-a delicadamente na testa.
Eles ficaram abraçados em silêncio acabaram dormindo abraçados do jeito que estavam.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Praga (Parte 2)

(Capítulo Anterior - Parte 1)

Não chegou a levar o tempo todo que Jared havia imaginado. Com o trânsito bem livre, duas horas e trinta minutos depois de terem saído, eles chegaram à Ancient Meadows. Era uma cidade pequena, aparentemente pacata. Muito provavelmente se não fosse a universidade, a cidade se resumiria a poucas casas e vário moradores espalhados pelas propriedades rurais.
- Por onde começamos?
- Vou parar o carro e ligar para meu irmão.
Anna ficou observando a cidade pela janela enquanto Jared falava com o irmão.
- Ele me explicou como chegar ao hotel onde ele está.
Jared dirigiu para lá.

- Daniel! - ele anunciou descendo do carro após estacioná-lo e indo abraçar o irmão que o esperava.
- Jared - Daniel retribuiu o abraço.
- Essa é Anna. Trabalha com a gente no café. Ela veio ajudar.
Anna e Daniel trocaram um aperto de mãos.
Ele era um pouco mais baixo e mais magro que o irmão. Seus olhos, castanho claro, combinavam com seu cabelo, também castanhos. Daniel usava uma camisa de malha branca com uma camisa xadrez azul por cima, calça jeans e um par de tênis preto.
- Vamos para o quarto e eu explico o que está acontecendo. Prefiro não falar aqui fora.
Os três seguiram para o quarto onde Daniel estava hospedado. O último daquele bloco, com uma janela ao lado da porta e equipado com televisão e banheiro. Ele se sentou em uma cadeira enquanto Anna e Jared se sentaram aos pés de uma cama de casal.
- As coisas estão muito estranhas aqui nos últimos dias. Um dia estava saindo sangue das torneiras, dois dias depois o campus ficou cheio de sapos.
- Será que não foi brincadeira dos veteranos, Dan?
- Eu quase acreditei nessa teoria Jay. Mesmo só saindo o tal “sangue” no chuveiro do dormitório feminino. Mas se você visse a quantidade de sapos que apareceram no campus. Mesmo que os veteranos estivessem criando sapos, não haveria tantos disponíveis. Você sabe como o campus é grande.
- E como vocês se livraram deles?
- Estranhamente, no dia seguinte apareceram todos mortos. Tão impossível quanto aparecerem tantos sapos é alguém conseguir matar todos eles.
- Bom, ele poderiam ter sido envenenados, mas isso é realmente estranho - Jared comentou.
- Depois disso eu preferi sair de lá. E foi na hora certa. Todos os quartos estão lotados agora.
- Todos?! - Anna exclamou.
Jared olhou para ela.
- Deixa pra lá, depois a gente resolve isso. Que tal se nós formos até a faculdade? - ela sugeriu.
Os irmãos se entreolharam.
- Não sei se vocês vão achar alguma coisa lá. Mas podemos tentar - concordou Daniel.
- De qualquer forma vai ser uma boa oportunidade pro seu irmão testar o detector de espectros.
- Desde quando você tem um troço desses, Jay? - Daniel abriu a porta e saiu.
- Bem, eu... hã..
- Você devia assistir menos televisão, cara.
- Eu falei - disse Anna enquanto saía do quarto.
Jared saiu por último e fechou a porta.

***
Eles deixaram o carro no estacionamento do campus de frente à reitoria e se separaram. Anna ficou encarregada de passear com o detector pela ala feminina e os irmãos andaram pelo campus nos locais onde os sapos haviam aparecido. No entanto, todos os lugares estavam como se nada estranho tivesse acontecido na cidade por anos. O detector de espectros também não emitiu nenhum sinal. O que já era esperado por Anna, pois ela estava certa de que o amigo havia sido enganado ao comprar tal bugiganga. Desanimados, eles decidiram que seja lá o que havia estado por ali, aparentemente não estava mais. Eles então voltaram para o hotel para tentar resolver o problema em relação à falta de vagas.

Jared parou o carro no estacionamento e os três seguiram para a recepção. Eles explicaram a situação para o homem que apareceu atrás do balcão.
- Olha, tudo o que eu posso fazer é colocar uma cama de solteiro no quarto - disse o homem. Ele parecia ter saído direto do festival de Woodstock e entrado na recepção há uns 60 anos para não sair mais. - E tem uma cama dobrável meio enferrujada no porão que eu posso emprestar.
- Vocês costumam ter a lotação esgotada? - Jared perguntou.
- Não é muito normal não. Mas com os últimos acontecimentos no campus. Ninguém mais quer usar os alojamentos da faculdade.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Praga (Parte 1)

Olá leitores!
Espero que vocês não tenham deixado de gostar das minhas estórias, pois eu ainda gosto muito de escrever. O que aconteceu, foi que eu fiquei um bom tempo sem passar nada pro papel, de forma que o blog pareceu um pouco abandonado. Mas eu não parei de ter ideias e vou me policiar para não parar de escrevê-las. 
Peço desculpas por ter deixado vocês sem novidades por tanto tempo. Farei o meu melhor para evitar que isso aconteça com muita frequência. 

Essa sé a segunda estória dos meus personagens Anna e Jared. Para conhecer a primeira aventura deles leiam o conto: Escuridão (leia o conto). A estória que se segue, no entanto é independente desta primeira, e aconteceu um ano depois de Anna ter começado a trabalhar no Art’s Café, a cafeteria do pai de Jared em Nova Iorque. Fiquem à vontade para ler na ordem que quiser. (Claro que se quiserem ler e comentar as duas ficarei imensamente feliz).

Boa leitura!

Ancient Meadows, Pennsylvania

Dias antes

- Melanie, me empresta o seu xampu? - pediu Sofia. O corpo esguio e os cabelos longos e loiros dela faziam inveja em muitas garotas.
- Claro - respondeu Melanie, sua amiga. Uma garota também magra, morena de cabelos negros encaracolados.
- Amanhã preciso comprar outro.
Sofia pegou sua toalha e sua camisola, saiu do quarto que dividia com Melanie e seguiu para o final do corredor onde ficava o banheiro do alojamento feminino da Ancient Meadows University. Não havia ninguém lá, pois já passara das 10 da noite. Ela acendeu as luzes, tirou a roupa pendurando em um dos ganchos fixos na parede e foi para um dos boxes individuais onde colocou a toalha sobre a porta. Depois colocou o sabonete e o xampu em locais próprios dentro do box e abriu a torneira de água quente. Aos poucos foi abrindo também a torneira de água fria e temperando a água. Quando sentiu que já estava agradável entrou embaixo do chuveiro e fechou os olhos.
Sofia pegou o xampu e colocou um pouco na palma da mão. A coloração avermelhada do xampu chamou sua atenção, mas ela não deu importância e o espalhou pelo cabelo. Acidentalmente entrou um pouco em seus olhos e a garota começou a jogar água neles e a esfregá-los. Ela olhou para o chão, mas não enxergava seus pés, pois seus olhos formavam uma imagem muito embaçada. Aos poucos sua visão foi ficando mais nítida e ela percebeu algo estranho na água. Não era o xampu da amiga que era vermelho, e nem tão pouco era em água que ela tomava banho. A universitária estava coberta de sangue, pois era isso que saia pelo chuveiro. Ela se desesperou. Pegou sua toalha, enrolou em volta do corpo e saiu correndo e gritando pelo corredor do alojamento feminino. Logo várias portas se abriram e o pânico tomou conta do lugar à medida que as garotas descobriam o que estava acontecendo.

Dias atuais

Era uma manhã chuvosa quando Anna chegou ao Art’s Café em Nova Iorque para mais um dia de trabalho. Há aproximadamente 1 ano ela havia começado a trabalhar ali e ela e Jared, filho de Arthur, dono do café, se tornaram bons amigos rapidamente. O emprego evitou que ela precisasse deixar o país contra a sua vontade por falta de dinheiro.
Jared e Arthur já haviam chegado e conversavam perto do balcão. Os dois eram bem parecidos, altos, fortes, mas com poucos músculos aparentes, entretanto era evidente a diferença de idade entre os eles pelos cabelos brancos que cresciam entre as mechas castanhas de Arthur. Seus olhos verdes, no entanto eram idênticos. Anna foi para a cozinha e depois de guardar sua bolsa, prendeu os longos cabelos castanhos e colocou o avental para começar a arrumar as louças.
Enquanto tirava as xícaras e pires do armário, ela não podia deixar de ouvir pai e filho conversando. Eles pareciam bem preocupados. Anna tentou se concentrar no que estava fazendo para não ouvir a conversa, mas não precisou fazer isso por muito tempo. Eles logo terminaram e Arthur foi embora após se despedir.
- Desculpa me intrometer, mas está tudo bem Jay? - ela se aproximou dele ao lado do caixa. Apesar de alta, Anna precisaria de mais uns 15 centímetros para ficar do tamanho dele.
- Você não intromete. Já é da família - ele deu um sorriso.
Ela sorriu em resposta.
- É meu irmão mais novo, Daniel. Está querendo largar a faculdade.
O sino que havia em cima da porta badalou. O primeiro cliente do dia havia chegado e Anna foi até ele ver o que queria. O homem, provavelmente um executivo, queria apenas um expresso e um lugar para conferir as notícias da manhã em seu tablet. Depois de servi-lo, Anna voltou a conversar com Jared.
- Porque seu irmão quer abandonar os estudos? Não está se dando bem com o curso que está fazendo?
- Não. Nem é isso. Ele gosta. Mas é que tem umas coisas estranhas acontecendo lá na universidade.
- Que tipo de coisas?
Jared coçou a cabeça - do tipo que a gente não acreditaria se já não tivesse tido nossas próprias experiências sobrenaturais.
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